O Globo
Domingo, 25 de setembro de 2011
Vai viajar ao exterior? Há 42 aéreas estrangeiras
Empresas já levam 65% dos passageiros, muitas com linhas alternativas. Há novatas de Ásia e América LatinaHenrique Gomes Batista
henrique.batista@oglobo.com.brDanielle Nogueira
danielle.nogueira@oglobo.com.
Nunca se voou tanto do Brasil para o exterior: no ano, até agosto, mais de 12 milhões de pessoas fizeram desembarques/embarques internacionais, 16,1% a mais que no mesmo período de 2010. E a principal opção tem sido as 42 empresas estrangeiras que atuam no país. Segundo a Junta de Representantes das Companhias Aéreas Internacionais do Brasil (Jurcaib), as empresas com bandeiras de outros países levam 65% dos passageiros. E devem chegar, em breve, a 70%, segundo analistas. Além do maior poder aquisitivo do brasileiro, as empresas estrangeiras aproveitaram o vácuo após a derrocada da Varig — que chegou a ter mais de 50% do mercado internacional. E, com perspectivas sombrias por causa da crise nas economias avançadas, a opção pelo Brasil ganha força.
O grupo de empresas que ampliaram presença no país só aumenta: Emirates, British Airways, Singapore Airlines, Copa, TAP, Taca, Qatar e Turkish entre outras. Para conquistar o passageiro nacional, as empresas estão até se “tropicalizando”:
— Temos cardápios em português e 400 comissários brasileiros na empresa, que além de sempre voar em nossas rotas para o Brasil, quase sempre estão presentes nas ligações preferidas dos clientes nacionais, como Dubai-China e Dubai-Japão — diz Ralf Aasmann, diretor-geral da Emirates no Brasil.
Há um ano na companhia, a curitibana Débora Guarise afirma que ser atendido por uma compatriota atrai os brasileiros. Ela acredita que este é um dos diferenciais da empresa, que inaugura em 2012 a linha Rio-Dubai.
— Eles adoram saber que há brasileiros na tripulação. Como alguns não falam inglês, eles se sentem bastante confortáveis.
Preço é grande diferencial para conquistar passageiro
Outra forma de conquistar brasileiros é criar rotas alternativas. Quem tem crescido assim é a uruguaia Pluna, que já tem no Brasil 40% de seus clientes. A empresa criou linhas diretas como Campinas/Montevidéu e São Paulo/Punta del Este:
— Estamos estudando novas rotas, como ligações para Goiânia, Campo Grande, Vitória, Maringá e Londrina — afirma Gonzalo Mazaferro, diretor comercial da Pluna no Brasil, lembrando que há 170 mil brasileiros em seu programa de milhagem, o dobro de há seis meses.
Mas o que mais leva os brasileiros a voar em empresas de outros países é o preço. A psicóloga Danielle Porto, que viaja sempre para os Estados Unidos, quase sempre vai de American Airlines:
— Prefiro o serviço da TAM, mas o preço é quase o dobro do cobrado pelas americanas. Não tenho o cartão Fidelidade, mas tenho a milhagem da American — diz, referindo-se à aérea que vai acrescentar 14 frequências semanais para o Brasil este ano.
Para Robson Bertolossi, presidente da Jurcaib, o aumento de voos é bom para a competição.
— As empresas internacionais tendem a conquistar mercado. Há aumento de demanda, mas há muita competitividade em muitas rotas. Na Europa, por exemplo, as pessoas não voam mais direto para seu destino, optam por fazer escalas para ganhar em preço — afirma.
André Castellini, da Bain & Company, especialista no setor, afirma que rotas internacionais ineficientes contribuíram para a quebra da Varig. Isso não se repete com TAM e Gol, que voam para menos destinos, mas com lucro. Ele acredita que o crescimento das estrangeiras se deve à maior importância do Brasil:
— Qualquer companhia aérea que quer ser grande planeja uma rota para Nova York. Sempre foi assim. De certa maneira, isso está acontecendo com o Brasil, por causa do crescimento do país. Estamos atraindo empresas, em vez de termos de correr atrás de destinos — diz.
Levantamento feito pela Decolar. com a pedido do GLOBO mostra que a oscilação do preço das passagens internacionais a partir do Rio varia conforme o destino e que, em alguns casos, a forte demanda abriu brecha para reajustes, mesmo com maior concorrência. O preço médio da passagem de ida e volta para Miami, por exemplo, subiu 23%, para US$ 1.292 na primeira quinzena de setembro, em comparação a igual período de 2010.
O mesmo ocorreu com Buenos Aires, cujo bilhete teve alta de 10%. Para Londres, porém, o preço foi na direção inversa: queda de 28%, principalmente devido à maior concorrência entre TAM e British Airways. Na maior parte de seus destinos internacionais, porém, a TAM diz que reajustou tarifas: alta média de 15% para América do Sul e EUA e de 10% para Europa.
A liberdade tarifária para voos internacionais adotada em 2009, que acabou com o preço mínimo das passagens, foi decisiva para o avanço das aéreas internacionais no Brasil, avalia o especialista em aviação Allemander Pereira Filho, da FGV. Como o custo das estrangeiras é menor que o das nacionais, diz, elas puderam conquistar clientes. Ele alerta para os riscos desta política:
— O Brasil responde por pouco mais de 3% do tráfego aéreo internacional. Se as estrangeiras tiverem de cortar voos por problemas financeiros, elas vão cortar voos aqui ou na Europa?
Com a política de céus abertos, que permite elevar frequências internacionais sem reciprocidade entre países, a fatia das estrangeiras só tende a crescer. As aéreas americanas usam hoje as 158 frequências semanais disponíveis, enquanto as brasileiras, apenas 69. A partir de 2015, sem a cota máxima, essa disparidade tende a aumentar.
TAM diz que cresce com consistência
A TAM, que hoje detém 25% do mercado internacional, vai inaugurar no dia 30 uma linha para o México. O vice-presidente de Planejamento e Alianças da TAM, Nelson Shinzato, afirma que atua em rotas rentáveis. Ele afirma que não vê os preços da companhia acima do realizado pelo mercado, tanto que seus voos saem lotados:
— O mercado mudou. Com a Star Alliance levamos nossos passageiros a 92 destinos, muito mais que poderíamos com aeronaves próprias de forma sustentável — diz, afirmando que o dólar não preocupa, pois a empresa olha a longo prazo.
A Gol chegou a retomar os voos da Varig para a Europa, mas cancelou alegando “incertezas” como aumentos dos preços dos combustíveis e indisponibilidade de aeronaves. Hoje voa apenas para a América Latina.
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