Fogo e ruínas
Revista Veja
18/02/1998
http://veja.abril.com.br/180298/p_026.html
O incêndio que reduziu a escombros, na última sexta-feira, o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, vai infernizar durante meses a rotina da mais movimentada linha áerea brasileira, a ponte RioSão Paulo. Convenientemente localizado no centro da cidade, à beira da Baía de Guanabara, o terminal de passageiros foi consumido pelo fogo, que começou por volta das 2 horas da madrugada e só foi debelado por volta do meio-dia. Como resultado, os 7.500 passageiros que circulavam diariamente pelas dependências do Santos Dumont, 70% deles da ponte aérea, e os 300 vôos foram transferidos para o Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, a cerca de trinta minutos do centro quando o trânsito está razoável. A mudança provocou desconfortos que vão além do tempo maior no trânsito.
O Galeão, que operava com apenas quatro vôos em média por hora, tem condições técnicas de absorver o movimento adicional, estimado em dez vôos por hora. "Ele pode absorver até vinte vôos por hora", explica o tenente-coronel Douglas Machado, do Centro de Investigação e Prevenção a Acidentes Aéreos da Aeronáutica, Cenipa. O mesmo não se pode dizer em relação aos passageiros, principalmente os da ponte aérea. Com apenas um terminal em funcionamento e sem sistemas de computadores para atender com rapidez o fluxo de passageiros que antes passava pelo Santos Dumont, as filas se tornaram inevitáveis. Na sexta-feira, dia em que o tráfego médio na ponte aérea cai de 5.700 para 3.500 passageiros, os vôos do Rio para São Paulo saíram com uma média de atraso de uma hora. E houve filas enormes.
Mais problemas Com escadas rolantes e elevadores que vivem quebrados, o Galeão não foi construído para receber o típico passageiro da ponte aérea, geralmente uma pessoa com pressa que embarca no avião sempre em cima da hora. "Deixar a ponte aérea no Galeão significa que os passageiros serão mal atendidos", admite Fernando Pinto, presidente da Varig, que junto com a Vasp e a Transbrasil divide a responsabilidade de ligar a capital paulista à fluminense. Os problemas devem agravar-se nesta semana, véspera de Carnaval, quando o movimento da ponte aérea dá um salto de 30%. Até a noite de sexta-feira, ninguém sabia dizer quando o Santos Dumont será reaberto em condições normais.
O incêndio destruiu o terminal de passageiros e a torre de controle do aeroporto, mas não afetou em nada a pista para pouso e decolagem. Portanto, não há nenhum impedimento para que ela seja utilizada pelos aviões. A torre de controle também não chega a ser um problema. A que foi destruída pelo fogo seria substituída por uma torre portátil, que está na base aérea de Santa Cruz, perto dali. A questão mais difícil de resolver era sobre a entrada e saída dos passageiros. Uma idéia, a ser discutida nesta semana pelas autoridades que administram o aeroporto, é utilizar provisoriamente o hangar da Varig, que fica na cabeceira norte da pista, como terminal de passageiros. Nesse caso, o Santos Dumont voltaria a funcionar de forma improvisada já nesta terça-feira.
Isso vai resolver o sufoco dos passageiros no terminal do Galeão e devolver a rapidez ao trânsito pela ponte aérea, mas o conforto será mínimo. O hangar, obviamente, não tem ar condicionado, artigo de primeira necessidade numa cidade como o Rio, escaldada por um verão de temperaturas recordes. Também terá instalações acanhadas para oferecer amenidades como cafezinho, jornais e revistas e balas, com as quais os viajantes estão habituados. Por essa razão, ainda que o Santos Dumont reabra em breve, o horizonte de vôo de quem se utiliza da ponte aérea permanecerá, pelo menos no curto prazo, bastante turbulento.
A reconstrução do aeroporto, já anunciada pelo brigadeiro Adyr da Silva, presidente da Infraero, só começa depois de feito um laudo para avaliar os estragos do incêndio. O fogo, que teria começado numa locadora de automóveis, destruiu 70% das instalações de seu terminal. Sobraram relativamente intactos os balcões das companhias aéreas, as lojas e os dois painéis que contam a história da aviação, pintados por Cadmo Fausto e tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional. O prejuízo foi estimado em 50 milhões de reais.
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