terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Acesso a Aeroportos Define Destino de Novatas

Roberta Campassi, de São Paulo. Valor Econômico, 11/02/2009.

São Paulo, SP. O acesso que a Gol teve aos principais aeroportos do país na época de sua criação foi determinante para o sucesso da companhia e também para a queda dos preços de passagens, em decorrência do aumento da concorrência. Essas são conclusões de um estudo concluído neste ano pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) a pedido da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que, embora analise o caso da Gol entre 2001 e 2004, apresenta debates semelhantes aos do atual momento do setor aéreo: entrada e crescimento de novas empresas (como Azul e Webjet); uso de aeroportos centrais e medidas para aumento da concorrência e redução de tarifas.

Elaborado pelo Núcleo de Economia dos Transportes, Antitruste e Regulação (Nectar), do ITA, o estudo mostra que logo no primeiro ano de operações, em 2001, a Gol alcançou 10% de participação em Congonhas, aeroporto paulistano que é o mais cobiçado do país. No fim daquele ano, a companhia aérea conseguiu entrar no Santos Dumont, aeroporto central do Rio de Janeiro - mas não sem antes enfrentar a resistência das concorrentes da época TAM, Varig e Vasp. Em 2002, a Gol já dominava 10% dos voos na movimentada ponte-aérea Rio-São Paulo. A aérea também teve acesso ao aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte. Na época, as autorizações eram dadas pelo antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) - hoje substituído pela Anac - que não seguia regras definidas para distribuição de espaços em aeroportos.

O acesso ao "filé" da estrutura aeroportuária conjugado a uma estratégia de "baixo custo e baixas tarifas" levaram a Gol a abocanhar participação crescente nos primeiros anos de vida, mostra o levantamento. Ela saiu do zero, em janeiro de 2001, para quase 30% no fim de 2005. Outras empresas não tiveram a mesma ascensão. É o caso da Webjet, criada em 2005, que não conseguiu crescer nos dois anos seguintes e só iniciou uma rota ascedente depois que foi comprada pela operadora de turismo CVC, em junho de 2007. Além de terem aplicado táticas diferentes - sendo que as da Gol foram mais eficientes -, a Webjet não conseguiu operar em Congonhas, Santos Dumont e Pampulha.

"O acesso aos mercados lucrativos constituídos pelos aeroportos congestionados pode ser fator crucial de distinção entre o sucesso e o fracasso da entrada de uma nova empresa no mercado", afirma o estudo. Para seu autor e coordenador do Nectar, Alessandro Marques de Oliveira, o acesso à infra-estrutura é também um dos principais fatores que determina o grau de concorrência entre companhias aéreas.

A presença da Gol em aeroportos importantes também fomentou uma redução geral de preços, uma vez que as concorrentes TAM, Varig e Vasp ficaram mais expostas à operação da nova companhia. Entre 2001 e 2003, segundo o estudo, a Gol conseguia ter custos em média 34% mais baixos que os das rivais e seus preços (medido pelo "yield", ou seja, quanto cada cliente paga para voar um quilômetro) eram em média 29% menores.

O estudo do Nectar estima que a presença da Gol em Congonhas fez os preços médios em voos diretos caírem R$ 100,7 entre 2001 e 2004. Nesse período, a aérea detinha 14% de participação em voos diretos no aeroporto. Mas, se essa fatia tivesse sido de 5% ou 1%, as reduções de preço também teriam sido menores, de R$ 87,8 e R$ 83,2. "Quanto mais perto dos rivais, maior a competição", afirma Oliveira.

As discussões do passado se repetem agora. Em 2001, mal havia começado a voar, a Gol criticou Varig e TAM por fazerem oposição no DAC à entrada da nova empresa no Santos Dumont. Hoje, a Azul tenta na Justiça operar no mesmo aeroporto e outras empresas como Webjet e OceanAir também defendem a abertura do local, sendo que a TAM é contra. "Aeroportos no centro das grandes cidades, como Congonhas, Pampulha e Santos Dumont, são muito mais práticos e atraentes para os passageiros, por isso temos interesse neles", afirma Pedro Janot, presidente da Azul.

A Anac vem tomando diversas medidas para abrir aeroportos e elevar a competição, com o argumento de que o consumidor será, assim, beneficiado com preços menores e serviços melhores. O órgão editou, em 2008, regra para permitir a operação de mais empresas em Congonhas a partir de 2010 e defende o fim das barreiras no Santos Dumont e Pampulha, hoje fechados a certos tipos de voo. A agência tenta extinguir os preços mínimos tabelados para passagens internacionais, mas vem encontrando oposição da TAM.

"O setor aéreo é tradicionalmente um oligopólio. Por isso, quando surgem empresas menores, bem estruturadas, o regulador enxerga nelas uma chance de chacoalhar o mercado para beneficiar o consumidor", diz Oliveira.

As reduções de preço já são vistas nas rotas que a Azul opera desde dezembro. A empresa começou oferecendo passagens de Campinas a Curitiba, por exemplo, por R$ 129 e já baixou para R$ 59. A TAM cobra R$ 39 e a Gol, R$ 49, quatro ou cinco vezes menos do que cobravam antes de a Azul chegar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.