Renato Fonseca
Jornal Hoje em Dia
Viajar de avião de Belo Horizonte para destinos mineiros é, na maioria das vezes, mais caro do que ir para capitais de outros estados. Ir de Belo Horizonte para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, num trajeto aéreo de 465 quilômetros percorridos em 1 hora e 15 minutos, custa R$ 283, com saída do aeroporto da Pampulha pela Trip Linhas Aéreas. Já a viagem para o Rio de Janeiro, saindo de Confins para o Galeão, custa R$ 139 pela Gol. Nesta, são 350 quilômetros (115 quilômetros a menos) em um voo que demora cerca de uma hora. Como as companhias têm liberdade para praticar os preços, o mineiro acaba pagando mais caro na hora de ir para uma cidade vizinha. Baixa demanda, custo elevado e falta de concorrência entre as companhias são os fatores que contribuem para o disparate nos preços.
O gerente comercial Vicente Caruso, 56 anos, que mora em Ubá, na Zona da Mata, faz as viagens aéreas BH-Rio, BH-Brasília e BH-interior mineiro durante toda a semana, representando a empresa de imóveis e eletrodomésticos em que trabalha. Ele conta que paga, em média, R$ 230 por cada passagem no deslocamento entre Belo Horizonte e Montes Claros, no Norte de Minas, valor semelhante ao que gasta quando vai a Uberlândia. Já quando preciso ir ao Distrito Federal ou ao Rio de Janeiro, muitas vezes, dependendo da promoção ou da compra antecipada, consigo uma passagem bem mais barata do que esta que pago para voar dentro do meu próprio Estado, compara.
Vicente Caruso diz que não entende o porquê da diferença nos preços e acredita que isso influencia as pessoas a optarem pelo transporte terrestre na hora de viajar pelo Estado. Como esse preço já é bastante salgado e não há, por parte dos governos, incentivos para as pessoas utilizarem o avião, elas acabam preferindo ir de carro ou de ônibus. Já na hora de ir para outro estado, essas mesmas pessoas deixam o carro na garagem, pagam mais barato e viajam com segurança, comodidade e rapidez, destaca o gerente comercial.
O executivo paulista Claudinei Peretta, diretor comercial de uma empresa que atua no ramo de bebidas, também não se conforma com os preços praticados. Na última quinta-feira, ao desembarcar no Aeroporto da Pampulha, ele mostrava a passagem aérea que custou R$ 213 para vir de Governador Valadares, na região do Rio Doce, até Belo Horizonte. Ao mesmo tempo, Claudinei exibia um bilhete que havia acabado de comprar para ir até São Paulo e tinha custado R$ 200. Mesmo afirmando que seus custos são pagos pela empresa, ele reclama e diz ser desnecessário cobrar mais caro da pessoa que pretende fazer um voo mais curto e em uma aeronave de pequeno porte.
Por ser dentro do Estado, existe aquele senso comum de que a passagem poderia ser mais barata. Mas é justamente o contrário que acontece, como no meu caso, pois paguei mais caro para me locomover aqui dentro do que para ir de uma capital para outra, relata Claudinei Peretta. Assim com ele, a dona de casa Lúcia Lourenço, que mora no Rio de Janeiro, também ficou sem entender o que aconteceu ao desembarcar na Pampulha. Ela tinha pago R$ 180 para vir da capital fluminense para BH e, como ia para Ipatinga, no Vale do Aço, teve que comprar outro bilhete de R$ 150, que achou muito caro. É praticamente o mesmo preço, sendo que a viagem é muito mais rápida. Considero abusivo por parte das empresas praticar estes preços, disse Lúcia Lourenço.
Os exemplos dos disparates de preços não param por ai. Quem viaja de Belo Horizonte para Patos de Minas, no Alto Paranaíba (viagem de apenas 50 minutos, em que são percorridos 300 quilômetros), tem que desembolsar R$ 235. Já uma viagem para Rio Verde, no estado de Goiás - onde se percorrem 765 quilômetros em aproximadamente 2 horas e 25 minutos - fica em R$ 168. O que chama mais atenção é que as viagens e os preços são praticados pela mesma empresa, a Trip Linhas Aéreas. Outro exemplo, mas com empresas diferentes, é o preço da passagem entre BH e Ribeirão Preto (SP), que custa R$184 pela empresa aérea Passaredo, enquanto uma passagem para Uberaba fica em R$ 251 pela Trip. Vale lembrar que, em todos os valores já citados, não estão inclusas as taxas de embarque, que variam de acordo com as empresas e destinos.
Uma rápida consulta ao site de algumas das empresas que operam em Minas Gerais demonstra que as distorções continuam. Em uma amostragem colhida no dia 29 de janeiro, foi verificado que a passagem para Uberlândia com saída de Belo Horizonte (Pampulha) pela Air Minas ficaria em R$ 299. Já a passagem para a mesma data pela TAM com saída da capital mineira para São Paulo poderia ser adquirida por R$ 219,50.
Não adianta. Para economizar, somente se for para ir de carro, e é isso que meu marido sempre faz, disse a dentista Maria Aparecida Marques de Souza, 39 anos, moradora do Bairro Sion, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ela, que aguardava o voo para Valadares, tinha pago R$ 185 pela passagem e disse que pretendia visitar uma amiga. Maria Aparecida revelou que frequentemente vai a São Paulo, onde moram seus pais. Ela deu uma dica para economizar ainda mais na hora de comprar o bilhete. As pessoas têm que se programar e comprar antecipado pela Internet. Desta forma, o voo fica bem mais barato, principalmente se for para fora do Estado, como no meu caso. Dependendo do horário da viagem, consigo comprar passagem com valores inferiores a 200 reais, contou a dentista.
Demanda e custo formam tarifas
O diretor de vendas e marketing da Trip Linhas Aéreas, Evaristo Mascarenhas, afirma que os custos da aviação regional são superiores aos das grandes empresas que trabalham com maior demanda e com rotas para fora do Estado. As pessoas precisam entender que o nosso setor possui uma série de gastos. Entretanto, temos tentado oferecer o que há de melhor para os passageiros e possuímos promoções e bônus exclusivos para aqueles que são clientes Trip, disse Mascarenhas.
Outras empresas foram procuradas, mas por meio de suas assessorias de imprensa emitiram nota dizendo que não iriam se pronunciar. A Associação Brasileira das Empresas de Transporte Aéreo Regional (Abetar) destacou que o aumento na concorrência estimularia a queda nos preços, mas que isso só seria possível com a criação de políticas públicas específicas para o setor regional, que poderiam beneficiar e incentivar este transporte.
O consultor em aviação Paulo Bittencourt Sampaio, economista e diretor da Multiplan Consultoria Aeronáutica, explica que o custo unitário das passagens em companhias regionais é realmente mais caro, o que obriga as empresas a praticar a alta. Essas empresas trabalham com aviões que possuem de 30 a 70 assentos, e isso faz com que o custo operacional, já que não são tantas pessoas assim, fique mais caro. Para sobreviver num mercado como esse, elas se veem obrigadas a repassar parte deste custo para os passageiros, salienta o consultor em aviação.
As palavras de Paulo Bittencourt são amparadas pelo diretor executivo Alessandro Oliveira, do Núcleo de Economia dos Transportes, Antitruste e Regulação (Nectar), que é um centro de pesquisas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Oliveira destacou os mesmos aspectos financeiros e chamou a atenção para outros pontos. Segundo ele, a aviação regional compete diretamente com o transporte terrestre, e o que poderia ser um estímulo à concorrência, fazendo com que as empresas praticassem um preço menor, acaba tendo um efeito contrário.
Como existem o carro e o ônibus, e muitos preferem estes meios de transporte, a aviação regional possui baixa demanda, ficando mais restrita às pessoas com maior poder aquisitivo. Em razão da procura ser menor, as companhias, para não terem prejuízos, praticam voos mais caros. A saúde financeira da empresa está em jogo, afirma Oliveira. Segundo ele, para capturar mais passageiros e diminuir o valor das passagens, somente acabando com o monopólio existente. É normal, em voos para uma cidade do interior, que exista somente uma empresa que ofereça aquela viagem. Assim, ela deixa de praticar aquele que seria um preço razoável e ideal para suprir os custos e acaba aplicando tarifas ainda mais caras e abusivas, diz.
Tarifas subiram 36,15% até novembro
Cálculos feitos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que as tarifas aéreas subiram 36,15% de janeiro a novembro do ano passado. A inflação do período foi de 5,6%. O resultado aponta a primeira alta na comparação anual desde 2005. Na avaliação do órgão regulador, o aumento de preços é reflexo da falta de concorrência no setor. TAM e Gol representam mais de 90% do mercado doméstico. Variação no preço do querosene de aviação e a valorização do dólar também contribuíram para a alta.
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