quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Aprenda a driblar o sistema de preços das passagens aéreas e pague menos

Maeli Prado , 6 Minutos - São Paulo


O que descobrimos

Um mesmo voo pode ter uma diferença de tarifa de mais de R$ 2.000, dependendo do horário e da antecedência da compra

Mesmo fora dos extremos, as diferenças pesam no bolso: 21% das tarifas Congonhas-Santos Dumont custaram menos de R$ 100 em fevereiro, enquanto 10%, entre R$ 400 e R$ 500

As empresas usam softwares altamente complexos, que funcionam de forma similar à Bolsa, para orientar sua precificação

Antecedência, flexibilidade e pesquisa são as melhores formas de driblar essas diferenças

Já imaginou pagar quase R$ 2.200 por um voo e saber que seu vizinho de poltrona desembolsou entre R$ 40 e R$ 50 pelo mesmo trecho? Uma diferença de mais de 5.000%? Parece impensável, mas não é difícil de acontecer: esses foram preços registrados em voos da ponte aérea Rio-São Paulo no mês de fevereiro.

O 6 Minutos pesquisou as tarifas encontradas pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para essa rota, a mais movimentada do país e a quarta do mundo, e entrevistou especialistas para entender um pouco mais sobre como funciona a precificação das companhias aéreas.

Os dados mostram que 21% dos passageiros dos voos partindo de Congonhas e chegando a Santos Dumont pagaram menos que R$ 100 em fevereiro. Ao mesmo tempo, um percentual expressivo, 10,6%, pagou entre R$ 400 e R$ 500 no mesmo trecho, ou no mínimo R$ 300 de diferença em um único voo.

Em média, o voo entre São Paulo e Rio em fevereiro custou R$ 309,80. Já o trecho entre Rio e São Paulo custou R$ 302,90.

Em resumo, independentemente dos extremos de passagens muito baratas ou muito caras, se planejar na hora de comprar tem muito impacto no seu bolso. Entender como essas diferenças são possíveis pode te ajudar a fazer negócios melhores na hora de viajar.

Como os preços são definidos? Em primeiro lugar, é importante saber que o setor aéreo é campeão no uso do chamado advanced analytics, um tipo de software muitíssimo sofisticado que analisa, sem parar, a procura por voos no momento presente, ao mesmo tempo em que leva em conta o histórico de reservas naquele trecho.

Esses sistemas, que recomendam a melhor tarifa com base nessas análises, são programados para indicar as melhores decisões de tarifa do ponto de vista da receita da companhia aérea.

“O algoritmo que indica a faixa de preço para determinado voo vai evoluindo sozinho, aprendendo, na medida em que vai sendo usado”, explica André Castellini, especialista no setor aéreo e sócio da consultoria Bain & Company. “O mecanismo de fundo, a tarifa, é determinado pela demanda e oferta naquele horário, com oferta de assentos para cada faixa de preço.”

Em outras palavras, a ferramenta funciona mais ou menos com uma bolsa de valores, em que a empresa tem um portfólio de assentos no lugar de uma carteira de ações. Os preços sobem ou caem minuto a minuto, dependendo da demanda.

Se não há muita procura, a companhia reduz suas tarifas para não correr o risco de voar com uma baixa ocupação. Isso acontece porque aviação é um negócio de custos elevados: se um avião não está com uma ocupação de cerca de 80% dos assentos, em média, os gastos com combustível, tripulação e manutenção superam  a receita, dando prejuízo à empresa.

“Esses sistemas vão fazer de tudo para conceder as passagens mais baratas apenas para o consumidor que só vai comprar se o preço estiver baixo”, afirma Alessandro Oliveira, do Nectar (Núcleo de Estudos do Transporte Aéreo), do ITA.

Entenda o que são passagens com restrições: É nesse momento que entram as restrições que vêm junto com as passagens realmente mais em conta.

“São atributos que tornam a experiência mais ou menos agradável, como possibilidade de remarcar a viagem, marcar assentos, carregar bagagens. Há um conjunto grande de facilidades que é usado para segmentar esse mercado”, diz Oliveira.

Mas isso quer dizer que esses softwares decidem sozinhos? Não, a decisão final sempre cabe a uma pessoa de carne e osso. “Sempre tem alguma coisa, um evento, uma greve, que o algoritmo não leva em consideração”, lembra Castellini.

As empresas também sempre operam de olho na concorrência, checando a todo o momento quantos assentos estão disponíveis nas outras companhias.


Sistemas permitem que as companhias saibam se há muita procura por um trecho, elevando o preço final
Crédito: Shutterstock

Pesquisa, antecedência e flexibilidade: Esses sistemas de precificação das empresas são programados para oferecer tarifas mais baixas se a reserva for feita com antecedência, já que, quanto mais perto do voo, menos assentos estão disponíveis.

“Quanto antes comprar, melhor. Isso é fato. Mas também não pode ser muito cedo. Entre dois e três meses antes do voo é o ideal. Porque as empresas avaliam que, se você está comprando muito cedo mesmo, é porque realmente quer ir, e o motivo de oferecer uma promoção se vai”, avalia Castellini.

Essa lógica começa a se perder, na avaliação de Oliveira, do Nectar, a partir dos seis meses de antecedência. “As empresas não trabalham seus preços tanto tempo antes porque as condições macroeconômicas e até as micro, como a falência de um concorrente, podem mudar”.

Pesquisar também é palavra chave na hora de encontrar o melhor preço. Olhar sempre sites que fazem buscas das tarifas mais em conta, como Melhores Destinos, Skyscanner e Kayak, entre outros, é um bom caminho.

Além disso, quanto mais flexibilidade você tiver para escolher a data dos voos, melhor. Em rotas muito usadas por viajantes de negócios, como a ponte aérea, os voos de ida da segunda-feira de manhã ou de volta da quarta, quinta ou sexta-feira à tarde sempre estarão mais caros.

“Nesses horários, tem muita gente disposta a pagar uma tarifa mais alta para voar. A experiência acumulada desses softwares vai indicar que a tarifa pode ser maximizada nesses horários”, afirma Castellini. Você pode ler mais dicas sobre como economizar aqui.

14/08/2019 - 06:00

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