Manoel Fernandes
Revista Veja, 07/01/1998
http://veja.abril.com.br/070198/p_048.html
Uma animada corrida envolve cerca de 2 milhões de viajantes nos céus do Brasil. Todos eles estão inscritos nos chamados programas de milhagem das companhias aéreas, que dão direito a prêmios em troca da fidelidade dos passageiros. A premiação mais cobiçada são as viagens gratuitas que os passageiros podem usufruir depois de acumular determinado número de milhas voadas. Só no ano passado, esses programas distribuíram mais de 300.000 passagens no país. Além disso, milhares de brasileiros ganharam outros mimos das companhias, como viajar nos melhores assentos, ter prioridade na fila de espera ou embarcar na primeira classe ou na executiva pagando o preço da econômica.
Criados na década de 80 nos Estados Unidos, os programas de milhagem têm mais de 100 milhões de associados no mundo inteiro. No Brasil, onde a novidade chegou em 1993, o número de inscritos cresceu 30% só nos últimos dois anos. O sucesso é fácil de entender. Através desses programas, as companhias aéreas premiam quem viaja mais e dá preferência às suas aeronaves. "É uma troca", diz a produtora de moda baiana Cristiana Viana, que já viajou quatro vezes de graça para Nova York por conta dos programas de milhagem. "Tenho de viajar de qualquer jeito, mas escolho a companhia aérea pelas vantagens que ela me oferece."
O sistema tem uma lógica simples. Para cada milha voada o passageiro ganha outra em forma de bônus. Ao atingir determinado número de milhas, ele recebe uma passagem gratuita. Um exemplo: para obter uma passagem de ida e volta entre São Paulo e Nova York, em classe econômica, é preciso acumular cerca de 50.000 milhas voadas, o equivalente a cinco viagens no mesmo trecho. Outra forma de acumular pontos é usar cartões de crédito de afinidade, associados ao programa. Cada dólar gasto no cartão dá direito a 1 milha extra no programa de milhagem. Algumas empresas aéreas também têm convênios com hotéis, locadoras de automóveis, restaurantes e outros estabelecimentos nos quais compras dão direito a bônus em forma de milhas. Há ainda o caso de companhias que usam um sistema diferente de pontuação, no lugar de milhas voadas (veja no quadro a comparação entre alguns programas).
No Brasil, todas as grandes companhias aéreas têm programa de milhagem, com exceção da Vasp, que suspendeu seu Bonus Vasp para reformulá-lo. O maior é o Smiles, do grupo Varig, com 800.000 inscritos. O segundo sistema mais procurado é o AAdvantage, da American Airlines, a pioneira nesse serviço em todo o mundo. O mais simples é o Fidelidade, da TAM, no qual os pontos são contados por trechos voados e não por milhagem. Dez viagens entre Curitiba e São Paulo num avião da TAM, por exemplo, dão direito a uma 11ª passagem de graça em qualquer trecho voado pelo companhia, incluindo algumas cidades da América do Sul. No Frequent Buyer, ligado à Transbrasil, os pontos são calculados pelo gasto com cartão de crédito associado ao programa e não pelas milhas voadas.
Novo filão Além de estimular a fidelidade dos passageiros às empresas aéreas, os programas de milhagem se transformaram num novo filão para as operadoras de cartões de crédito. O American Express tem uma associação com cinco companhias Delta, Varig, Swissair, Air France e Continental e uma vantagem sobre os demais programas: não há prazo para usar os pontos acumulados. O Diners Club possibilita a seus clientes somar pontos em 27 empresas aéreas de todo o mundo. "Essas parcerias permitem que, mesmo viajando pouco, uma pessoa possa ganhar passagens gratuitas só usando o cartão de crédito", afirma o gerente de marketing da Varig, Júlio Pacini. "Muita gente costuma planejar um gasto mensal no cartão para garantir a passagem das férias." Na prática, não é tão simples assim: para conseguir uma passagem São PauloNova York é necessário gastar uma média mensal de 1.388 reais no cartão de crédito durante três anos.
A maioria dos associados aos programas de milhagem são executivos que voam a trabalho. Como viajam muito, há enorme concorrência entre as companhias por esses turistas de negócios. Ocorrem casos singulares, como o de André Ribeiro, piloto de Fórmula Mundial, antiga Fórmula Indy. Ele já acumulou mais de 2 milhões de milhas em viagens entre Brasil, Estados Unidos, Europa e Austrália. Só no programa AAdvantage, Ribeiro teria direito a seis passagens ida e volta de São Paulo para o Havaí. "Como não tenho tempo para usar as milhas acumuladas, costumo repassar as passagens para amigos e familiares me visitarem no exterior", conta o piloto. Ribeiro diz que, além do prêmio, uma grande vantagem de ter um programa de milhagem é o tratamento no embarque: "Quando mostro meu cartão no balcão do aeroporto, sou tratado como rei".
No link há imagens da reportagem:
http://veja.abril.com.br/070198/p_048.html
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