O Estado de São Paulo
Domingo, 26 de novembro de 2006
ECONOMIA & NEGÓCIOS
Crise afasta passageiros e afeta não somente a imagem das companhias, mas também o faturamento
Mariana Barbosa
O 'apagão aéreo' já começa a se refletir no desempenho do setor. As líderes TAM e Gol, que vinham exibindo taxa de ocupação de 75% em suas aeronaves, em média, viram a taxa despencar 7 pontos porcentuais nos primeiros 15 dias deste mês. Na semana passada, a Gol revisou suas expectativas para o ano, com queda de R$ 100 milhões na projeção de faturamento. Analistas prevêem impacto similar para a TAM.
Apenas quando ficou claro que a crise afetava também o movimento, com passageiros desistindo de voar, é que as companhias chamaram uma reunião com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) para discutir melhoria na comunicação.
Reunidas na quarta-feira em Brasília, empresas aéreas, Decea e Anac se comprometeram a trocar informações sobre atrasos e cancelamentos e fazê-las chegar o mais rápido possível ao passageiro, seja nos balcões de check-in ou nos painéis de informações dos aeroportos - comumente desatualizados. Até sexta-feira, a situação não estava resolvida.
Resta saber se será. A desinformação tem sido total e não se viu nenhum esforço para diminuir os transtornos. Depois dos primeiros dias de confusão em frente aos balcões de check-in (área de acesso livre para a imprensa), misteriosamente a emissão do cartão de embarque ficou mais ágil, e a confusão foi transferida para as salas de embarque (onde só entra quem tem bilhete). Dessa forma, os passageiros só ficavam sabendo dos atrasos quando já não havia para quem reclamar.
O diretor do Snea Anchieta Hélcias reconhece que houve falha de comunicação, mas diz que o problema era de todo o sistema, e não fruto de 'arrogância' das duas líderes do setor. 'Temos reclamações com relação a todas as companhias, grandes e pequenas.'
Com a perda de espaço da Varig, a concentração do mercado com a TAM e a Gol preocupa analistas, embora não existam sinais de abuso de poder econômico. 'Os altos lucros da TAM e da Gol este ano não são resultado de práticas anticompetitivas, mas da demanda forte e do real valorizado', avalia Alessandro Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos em Competição e Regulação do Transporte Aéreo (Néctar), do ITA.
A grande preocupação, segundo Oliveira, é com a atitude da Anac, que deveria estabelecer regras para estimular a concorrência efetiva no setor, permitindo o fortalecimento de outros concorrentes. 'Os primeiros sinais dados pela Anac vão no sentido contrário.'
Ele cita a nova regra de distribuição de slots (horários de pousos e decolagens) em aeroportos concorridos. Proporcional à participação de mercado das companhias, a regra fortalece quem já é forte.
Para Lúcia Helena, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as pequenas empresas não conseguiram ocupar o espaço deixado pela Varig por causa de regras restritivas. 'Existe espaço para a concorrência, é só abrir oportunidades que ela aparece. Mas a conduta tímida das pequenas reflete o ambiente regulatório. Elas não investem pois o regulador não demonstra ter desejo de estimular a concorrência.'
Na avaliação da economista do Ipea, falta clareza na definição do marco regulatório do setor aéreo. 'Quando passageiros invadem balcões das companhias e as pistas dos aeroportos, está claro que o sistema não está funcionando bem.'
REVIRAVOLTA
Desde 2005 e até o primeiro semestre deste ano, o setor vinha num ritmo de crescimento inédito. Para dar conta da demanda e ocupar o espaço deixado pela Varig, TAM e Gol aceleraram seus cronogramas de entrega de aviões. Mesmo suprindo integralmente a oferta da Varig no mercado doméstico, o crescimento da oferta tem sido inferior ao da demanda. A partir do segundo semestre, no entanto, a demanda começou a desacelerar, movimento que foi agravado este mês por causa da crise do setor.
'Estamos observando uma reversão de expectativa de demanda', afirma o consultor de aviação Paulo Sampaio. 'Estou vendo muita gente desistindo de voar, optando por viajar de carro para algum lugar mais perto de casa no fim do ano.'
Sampaio acredita que o mercado caminha para um cenário de superoferta em 2007 - o que pode ser uma ótima notícia para o passageiro, pois as companhias terão de fazer muitas promoções para recuperar o nível de ocupação de seus aviões.
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