
Hoje os tempos são outros. A qualidade dos serviços de bordo caiu na mesma proporção em que o transporte aéreo se popularizou pelo mundo afora. Mais passageiros a bordo, mais consumidores sensíveis ao preço do que à qualidade intrínseca do produto.
Tempos de crise, de corte de custos. O serviço de bordo das companhias aéreas tradicionais passa por "idas e vindas", ao sabor das flutuações do ciclo econômico, das crises do capitalismo, e da competição com empresas aéreas de baixo custo (que ficaram tradicionalmente conhecidas como "no-frills airlines"). Atualmente pode-se dizer que há uma variabilidade tremenda nos padrões de serviço de bordo, dado que as companhias aéreas ajustam o seu serviço de acordo com as características da demanda. E esta última pode variar de tempos em tempos, país para país e até rota para rota. Piadas sobre o tema fazem atualmente parte do nosso cotidiano. Imagine se alguém criasse a "Vigilantes do Peso Linhas Aéreas"???
"Avião não é restaurante" - disse certa vez um alto executivo da Gol em um Congresso da Associação Nacional de Transportes (ANPET). É verdade. Por um lado, o serviço de bordo é um alínea de custo para a companhia aérea. Envolve planejamento, logística, manutenção de padrões, etc., tudo pago a peso de ouro quando se trata de levar comida literalmente às alturas. Além disso, as bandejas e a alimentação aumentam o peso das aeronaves, o consumo de combustível e contribuem, em última instância, com as emissões de CO2 no planeta.
Alguns itens de qualidade do serviço têm sido vistos pelas companhias aéreas como uma oportunidade para cobrar uma "tarifa em duas partes". Ou seja, o passageiro paga uma passagem aérea barata, mas é cobrado por tudo o que quiser à mais. Algumas exageram nesse quesito. Por exemplo, a empresa aérea de custo baixo Ryanair anunciou recentemente que vai cobrar uma libra pelo uso do banheiro a bordo. Vejam só como saiu na midia britânica:
PS: "loo"significa toillet. É claro que o tiro pode sair pela culatra: a cobrança de uso do banheiro pode inibir os clientes de comprar bebidas a bordo (mais bebidas, mais do "número 1" a bordo). O economista diria que, se alimentação e banheiro forem bens complementares, então aumentar o preço de um deles, fará com que a demanda pelo outro caia.
Mas olhando a questão por um outro ângulo, entretanto, é claro que um bom serviço de bordo confere qualidade percebida à companhia aérea, e muito provavelmente uma maior disposição a pagar do próprio consumidor. Além de ser um diferencial em relação à concorrência. Mais qualidade, mais consumidores insensíveis a preço - e maior lucratividade.
É do cálculo de custo-benefício da companhia aérea que se gera o resultado final de um serviço de bordo "bom" ou "ruim". Note que eu classifiquei esses termos entre aspas. Há quem diga que o regulador deveria impor regras sobre o que se passa nas alturas na relação entre passageiro e companhia aérea. De fato, as autoridades vêm se demonstrando preocupadas com itens como o espaço entre as poltronas, por exemplo (Recordar é Viver: ANAC vai propor selo de qualidade). O problema é saber o quanto os passageiros estão dispostos a pagar por mais qualidade a bordo - e isso regulador nenhum no mundo sabe direito.
Pode-se ilustrar o ponto de que qualidade a bordo é um atributo de difícil regulação e que muito provavelmente não vale a pena termos uma autoridade que entre nos detalhes dessa relação comercial. A ilustração vem de um depoimento encontrado na blogsfera. Diz o blogueiro que havia feijoada a bordo. Sim, feijoada a bordo, como nos bons tempos. Vale a pena acessar, tem até foto (http://liviagm.blogspot.com/2008/06/nas-alturas.html). Mas o cliente, mesmo achando bom, reclamou. Talvez topasse trocar a feijoada por um punhado de barrinhas de cereal caso tivesse um desconto na passagem aérea. Quem vai saber?
Para os amantes da gastronomia a bordo, recomendo o texto "Comida de bordo: um raro prazer", de Cora Rónai (http://www.almacarioca.com.br/cro176.htm).
Para fechar, é preciso também referenciar a frase que deu origem ao título desta matéria: “O importante não é a comida; é estar comendo a caminho de algum lugar” é do brilhante Luis Fernando Veríssimo. Mas, lembrando sempre: o economista que há em cada um de nós diz que o transporte aéreo é um "bem" com "demanda derivada". Ou seja, sua demanda "deriva" de algo a fazer (um compromisso, uma reunião, um lazer, etc.). Ninguém consome transporte como um fim em si próprio, porque chegar ao destino (na hora certa, no aeroporto conveniente, etc) é sempre mais importante! Literalmente, "food for thought"!!!!.
Parece discutível a conclusão "ninguém consome transporte como um fim em si próprio...", talvez possa se aplicar apenas ao transporte "aéreo". Pois meus vizinhos embarcaram num navio Santos-Salvador da Bahia-Santos, cruzeiro de 7 noites mas também inegavelmente um serviço de transporte marítimo, mas nunca tiveram a intenção outra de apenas serem transportados. Nada de desembarque, etc ou chegar a qualquer destino. E conheço bastante gente que já pagou avião para desfrutar do simples prazer de ver a terra lá do alto...(O gerente aqui do estacionamento na Vila Olímpia foi ao Rio num vôo desses promocionais e regressou 1 hora depois, sem nem ter saído do Santos Dumont). Enfim...(é só pra provocar, o normal mesmo é querer sair logo desses aviões modernos mas extremamente desconfortáveis - e agora inventaram de colocar telas tipo touch screen nas costas das poltronas fazendo com que o miserável "usuário" do assento de trás tenda a ser operador de britadeira...). Abs, Eno
ResponderExcluirGrande Eno,
ResponderExcluirVc está coberto de razão. Um cruzeiro é uma daquelas exceções onde transporte e turismo fazem parte do mesmo serviço. Mas o interessante é que também podemos pensar no passeio de cruzeiro como um "resort ambulante". Se for assim, então o verdadeiro "transporte" envolvido seria o transporte de acesso até o "resort".
Mas, no caso do gerente do estacionamento, aí realmente o caso é esse mesmo, os meios justificando os fins, rs rs rs.
Abs e valeu!!!
Alessandro.
Caro Alessandro,
ResponderExcluirNo meu ponto de vista as empresas erram em simplesmente dar uma diminuida na qualidade da alimentação, como forma de diminuir custos (o que é necessário) para as companhias. Creio que o melhor seria uma seleção conforme o cliente (cartão fidelidade) e oferecer algo superior ainda em terra, como está fazendo a Lufthansa, no aeroporto de Frankfurt, para seus clietnes de classe executiva e primiera classe. Obviamente não precisa ter um gasto de 190 milhôes de dólares, mas uma sala mais simples com algumas opções de alimentação. Os clientes especiais teriam uma alimentação melhor ainda em solo e no vôo a barrinha ou lanche simples. Com isso coninuariam sem levar peso e estrutura a bordo e agradariam aqueles clientes que normalmente proporcionam maior retorno.
Abraço,
Alexandre