http://veja.abril.com.br/121201/p_158.html
A TransBrasil deixa de voar em
meio a uma crise interna e outra
que afeta fortemente o setor
| Paulo Pinto/AE Passageiros da TransBrasil na semana passada: bilhetes na mão, mas sem aviões no ar |
Na terça-feira da semana passada a TransBrasil parou de voar. A empresa, que operava desde 1955, definhou lentamente. Nos últimos meses, a companhia acumulou vários processos na Justiça. Credores internacionais cobravam dívidas de leasing de turbinas e de aeronaves e funcionários reclamavam salários atrasados. A gota d'água foi a decisão da Shell de suspender, por falta de pagamento, o abastecimento dos cinco aviões que ainda voavam com as cores da empresa. A TransBrasil aterrissou de barriga por diversos motivos. Um deles é mais geral. Depois dos atentados terroristas em Nova York e Washington, um descrédito generalizado contaminou o setor, com uma queda de demanda que chegou a 60% dos assentos. Nos Estados Unidos, os efeitos da crise foram minimizados com um aporte de 15 bilhões de dólares que saiu dos cofres do governo americano. No Brasil, o fenômeno não se repetiu – nem era o caso. Aqui os problemas reais são de outra natureza.
Desde seu nascimento, a indústria da aviação civil é problemática. A razão principal são os custos fixos. Decole cheio ou vazio, um jato comercial exige da companhia o mesmo desembolso. Os custos fixos chegam a 45% das despesas totais e quase todos são contratados em dólares. Entre eles, estão a manutenção das aeronaves e o aluguel de aviões e turbinas, pagos mensalmente. Desde o começo do ano o real desvalorizou-se mais de 20% ante o dólar, catapultando o custo do abastecimento de combustível, que também tem preços atrelados ao dólar. Além disso, TransBrasil, Varig e Vasp sofreram com planos econômicos passados que congelaram os preços das tarifas em um ambiente excessivamente inflacionado. A eterna dívida das empresas aéreas brasileiras tem nesse descompasso boa parte de sua origem.
| Raul Junior Celso Cipriani: o presidente é acusado pelos funcionários de cuidar melhor de seus negócios particulares |
Os empresários reclamam com razão que o setor é muito regulamentado no Brasil. Os impostos sobre uma passagem no país são quatro vezes mais altos que nos Estados Unidos. O preço das tarifas só foi liberado há quatro meses. As taxas aeroportuárias, no entanto, motivo de muitas queixas das empresas, não são tão pesadas. "As brasileiras são equiparadas às taxas cobradas em outros países", diz Maurício Levi, da Fama Investimentos, consultor de aviação civil. Atribuir o tombo da TransBrasil somente aos problemas do setor é simplista. A má gestão foi um componente definidor no caso.
A estratégia comercial da TransBrasil para alavancar os negócios não vingou. A promoção não atraía os passageiros executivos, que costumam pagar tarifas cheias. Era atraente apenas para os turistas, que viajam quase sempre com enormes descontos. Finalmente, há críticas e denúncias contra o presidente da companhia, Antônio Celso Cipriani. Ele está à frente dos negócios desde que o sogro, o falecido Omar Fontana, fundador da empresa, ficou gravemente doente. Entre os funcionários e alguns executivos sua fama é de péssimo administrador. Cipriani representa no Brasil a Bombardier, fábrica de aviões canadense, maior concorrente da brasileira Embraer. Seus desafetos na empresa dizem que Cipriani dá mais atenção a seus negócios pessoais, como uma mineradora, em Minas Gerais, que à TransBrasil.